Voynich
Um manuscrito que ninguém conseguiu decifrar — talvez porque todos tenham feito a pergunta errada.
Há segredos que a História enterrou.
Este aprendeu a abrir portas.
Um manuscrito que ninguém conseguiu decifrar — talvez porque todos tenham feito a pergunta errada.
Pedras talhadas com uma precisão que desafia a versão confortável da nossa própria história.
Uma civilização quase apagada da História deixou sinais diante de nós — e ainda hoje nos controla sem que ninguém perceba.
Sob a arquitetura do sagrado, uma passagem aguarda o comando capaz de despertá-la.
O manuscrito Voynich atravessou séculos sem revelar sua linguagem. As ruínas de Puma Punku desafiam explicações simples. Registros fragmentados apontam para os ethrurianos, uma civilização perdida cujo legado pode alterar tudo o que sabemos sobre a humanidade.
Quando essas pistas convergem para um portal escondido em uma catedral, o mistério deixa de ser arqueológico. Há um protocolo. Há uma porta. E há algo do outro lado esperando que alguém complete a sequência.
Se a História foi escrita para esconder a verdade, quem terá coragem de abri-la?

Conheça o início de Protocolo Wosters e acompanhe os primeiros sinais de um mistério capaz de alterar tudo o que sabemos sobre a humanidade.
Começar a leitura ↓ Trecho integral fornecido pelo autor Marcelo Lou Frey.Toque no título de cada capítulo para abrir ou fechar.
Dezembro em New Haven tinha uma crueldade particular: as manhãs antes do café pareciam não terminar nunca.
Eram sete e meia, e a cidade já estava cinza — não o cinza dramático das tempestades, mas o cinza doméstico de um dia sem intenção de surpreender. Do outro lado da janela, um caminhão recolhia os restos da partida dos Yale Bulldogs. Pela quantidade de copos amassados e embalagens espalhadas na calçada, o jogo devia ter sido emocionante. Eu nunca havia entrado no Ingalls Rink, embora morasse em frente. Aprendera a medir a importância das vitórias pelo volume do lixo na manhã seguinte.
Conferi as tigelas do Bibú. Comida, água, tudo em ordem. Ele me observava perto da porta com aquela expressão que misturava gratidão e julgamento, como se soubesse que eu ia sair e ainda não tivesse decidido se me perdoaria.
— Não começa — avisei.
O pinscher inclinou a cabeça.
Meu notebook permanecia aberto sobre a mesa. Na tela, uma imagem ampliada do fólio 86 do Manuscrito Voynich dividia espaço com três artigos, duas planilhas e uma caixa de e-mails que eu evitava abrir. Havia anos, aquela tela era a minha janela favorita para o mundo. Só muito depois eu entenderia que algumas janelas, quando ocupam toda a nossa atenção, também podem funcionar como paredes.
Eu estava no último semestre do doutorado. Pelo menos era o que repetia a mim mesma enquanto escolhia entre a bicicleta, quatro camadas de roupa e o risco de congelar, ou o carro, com um aquecedor que só funcionava quando queria. Fingir que aquela era a decisão mais difícil do dia me tranquilizava.
Meu pai detestava segundas-feiras.
“Não espere muito delas”, dizia.
Era um pessimista engraçado. Fazia falta.
Perdi minha mãe aos dois anos e meu pai aos onze, em acidentes aéreos diferentes, como se o céu tivesse uma cota reservada para a minha família. Estudar começara como uma forma de mantê-los por perto. Depois virou disciplina, refúgio e, em algum momento que não consegui identificar, dependência. Eu já não sabia se pesquisava para honrar os mortos ou para evitar uma vida na qual precisasse sentir a ausência deles.
A campainha tocou antes que eu fechasse o notebook.
Bibú disparou a latir.
— Eu ouvi.
Ele latiu mais alto, talvez para deixar claro que não confiava na minha capacidade de proteger o apartamento.
Olhei pelo olho mágico. Dois homens de terno aguardavam no corredor. Não eram professores, e nenhum estudante de Yale estaria vestido daquele jeito às sete e meia de uma segunda-feira. Os ternos eram sóbrios, caros e bem cortados demais para uma visita casual.
Pedi um instante, levei Bibú até o quarto e voltei. Antes de abrir, deixei a corrente presa.
— Pois não?
Os dois mostraram distintivos.
— Departamento de Polícia de Nova York — disse o primeiro. — Tenente Raiam. Este é o tenente González. Podemos falar com Stern Ashira Gluck?
— Depende. O que a polícia de Nova York quer em Connecticut?
O homem de cabelo castanho quase sorriu. Seu parceiro, de cabelo preto e traços andinos, permaneceu impassível.
— Confirmar primeiro que estamos falando com a pessoa certa.
— Estão.
Raiam consultou o celular, depois me examinou outra vez.
— A doutora Gluck?
— Doutoranda. “Doutora” ainda depende de uma banca e de três pessoas particularmente difíceis de agradar. Stern basta.
— A ficha dizia especialista em paleografia, antropologia e linguística histórica. Imaginei alguém mais…
— Velha?
— Experiente.
— É uma palavra mais educada.
González desviou o rosto para esconder um sorriso. Soltei a corrente e permiti que entrassem.
Eu conhecia aquela hesitação. Em congressos, professores que haviam lido meus artigos procuravam uma mulher de cinquenta anos e passavam por mim no corredor. Em bancas, convidados conferiam meu crachá antes de aceitar que a pesquisadora e a estudante eram a mesma pessoa. Aos vinte e nove, eu ainda carregava no rosto uma juventude que meu currículo desmentia. Já me incomodara. Naquela altura, tratava a surpresa alheia como tratava erros de catalogação: corrigia uma vez e seguia em frente.
— Café?
— Não, obrigado — disseram quase juntos.
— Então me contem por que vieram.
Raiam não se sentou. González pousou uma maleta rígida sobre a mesa e retirou um envelope de evidência lacrado.
— Encontramos isto numa cena sob nossa jurisdição. O capitão recebeu seu nome como possível consultora.
— Quem indicou?
— Não informaram.
— Onde foi encontrado?
— Ainda não podemos dizer.
— E o que esperam de mim?
— Que nos diga o que está escrito.
González calçou luvas, rompeu o lacre diante de mim e tirou uma lâmina transparente. Dentro dela havia um fragmento retangular, amarelado, coberto por sinais escuros e sequências numéricas.
Meu sono desapareceu.
— Posso aproximar a luminária?
— Sem retirar da proteção — respondeu González.
Inclinei a luz. A superfície não tinha as fibras irregulares do papel. Era mais lisa, com poros minúsculos e uma ondulação quase imperceptível nas bordas.
— Isto é velino. Pele animal preparada para escrita, provavelmente de bezerro ou cabra.
Raiam se aproximou.
— Antigo?
— Parece. Mas aparência não data documento. Seria irresponsável cravar uma idade sem análise. Pelo padrão de fabricação, pode ter alguns séculos.
— Consegue ler?
— Os números, sim. O restante…
Puxei a luminária um pouco mais para perto. A cadência dos símbolos me incomodava de uma forma familiar. Não era reconhecimento completo. Era a sensação de ouvir, atrás de uma parede, uma música que eu conhecia sem conseguir lembrar o nome.
— Onde está a ampliação?
— Que ampliação? — perguntou Raiam.
— A fotografia de alta resolução feita pela perícia.
Os dois se entreolharam.
— Não recebemos uma — disse González.
— Vocês atravessaram dois estados com uma prova original, mas não trouxeram uma fotografia?
— Nosso prazo ficou curto.
— Ou alguém quis que eu visse o objeto, não uma imagem dele.
Raiam sustentou meu olhar por um segundo além do necessário.
— A senhora vê diferença?
— Ainda não sei.
Fui até o notebook, abri a pasta de referências e procurei um fólio específico. Comparei o ritmo dos glifos, os espaços, a inclinação da escrita. O fragmento não reproduzia nenhuma página conhecida. Ainda assim, parecia obedecer à mesma mão — ou à mesma lógica.
— Isto pode estar relacionado ao Manuscrito Voynich.
— Voinite? — tentou González.
— Voynich. O nome vem de Wilfrid Voynich, o livreiro que o adquiriu em 1912. O manuscrito está na Beinecke, aqui em Yale.
— De quando é? — perguntou González.
— O carbono 14 situou o velino entre 1404 e 1438. A origem exata continua discutida. Duzentas e quarenta páginas sobrevivem, escritas num sistema que ninguém demonstrou compreender. Há plantas que não correspondem a espécies conhecidas, diagramas astronômicos, figuras humanas, estruturas que parecem receitas ou instruções. Cada pesquisador enxerga nele o reflexo da própria especialidade.
— E a senhora enxerga o quê?
Olhei outra vez para a folha protegida.
— Uma mensagem que sobreviveu melhor do que seus destinatários.
— E a senhora estuda esse livro? — perguntou Raiam.
— Ele é o centro da minha tese.
— Então consegue traduzir?
— Ninguém consegue. Não de forma verificável.
A expressão dos dois mudou. Não era decepção. Parecia confirmação.
— Mas esta folha tem números — continuei. — O manuscrito conhecido não tem. Se a relação for real, isso pode ser uma chave, uma instrução, uma coordenada…
Raiam lançou um olhar rápido para González.
Eu interrompi a frase.
— Vocês já suspeitavam disso.
— Suspeitávamos do quê? — perguntou Raiam.
— De que não era apenas um texto.
Ele guardou as mãos nos bolsos.
— Podemos verificar a relação com o livro?
— Podemos tentar. Mas não aqui.
— Onde?
— Na Beinecke.
* * *
A Biblioteca Beinecke parecia ainda mais severa quando alguém chegava acompanhado por policiais. O mármore translúcido filtrava a luz do inverno e transformava o interior numa penumbra dourada. O prédio inteiro tinha a aparência de um cofre construído para guardar não apenas livros, mas versões do mundo que ninguém queria perder.
No centro, a torre envidraçada subia por seis andares. Centenas de milhares de volumes se alinhavam atrás do vidro como testemunhas silenciosas. Sob nossos pés, depósitos subterrâneos guardavam muitos outros. Eu conhecia números, sistemas de climatização e protocolos de emergência; ainda assim, toda vez que entrava ali sentia a mesma reverência infantil. Alguns lugares nos convencem de que o passado pode ser mantido vivo se a temperatura e a umidade forem corretas.
No balcão de segurança, pedi acesso à sala de consulta.
— A senhora tem agendamento? — perguntou o funcionário.
— Não.
Ele me olhou por cima dos óculos.
— Então está pedindo o fac-símile.
— Estou pedindo que o diretor Larsson venha até aqui. Temos uma possível peça desconhecida relacionada ao Voynich e dois agentes de polícia com documentação de custódia.
— Stern…
— Diga exatamente isso a ele. Se eu estiver errada, assumo o constrangimento.
O funcionário avaliou os distintivos, o envelope lacrado e minha expressão. Pegou o telefone.
Vinte minutos depois, estávamos na sala individual número dois. Wolf Larsson apareceu pessoalmente, irritado o suficiente para demonstrar que viera depressa.
— Você sabe quantas regras está me pedindo para quebrar antes do almoço?
— Tecnicamente, nenhuma. Só estou pedindo que as aplique com rapidez.
— Continua insuportável.
— O senhor continua vindo quando eu chamo.
Wolf conteve um sorriso e se voltou para os policiais.
— O original não será tocado pela peça de evidência. Faremos primeiro a comparação digital. Se houver justificativa, autorizo uma inspeção presencial sob proteção.
Raiam assentiu.
Uma funcionária trouxe o fac-símile e o conjunto de imagens multiespectrais. Durante quase três horas, comparei o fragmento com páginas conhecidas. Os números não ofereciam padrão óbvio. Os glifos apareciam em sequências parecidas, mas nada era conclusivo.
Comecei pela seção botânica, passei pelos diagramas circulares e cheguei aos cadernos astronômicos. Testei recorrência de sinais, posição das linhas, densidade da tinta e proporção das margens. Em alguns momentos, a folha parecia pertencer ao mesmo sistema; em outros, parecia uma imitação construída para explorar minha expectativa. Anotei hipóteses e risquei todas. Pedi água, esqueci de beber. A manhã virou tarde sem que eu notasse.
Raiam tentou acompanhar no início.
— Este símbolo é uma letra?
— Talvez.
— E este?
— Talvez a mesma letra em outra posição. Ou uma abreviação. Ou uma unidade.
— A senhora diz “talvez” com muita segurança.
— É a palavra mais honesta da pesquisa.
Ao meu redor, a atenção dos outros se dissolveu pouco a pouco. Raiam verificava o relógio. González digitava mensagens. A funcionária alternava entre a tela e a porta. Eu continuava.
Na imagem 207 do fac-símile digital, encontrei a primeira anomalia.
— Volte.
A funcionária retornou uma imagem.
— Amplie a margem externa.
A página ocupou a tela inteira. Havia três perfurações de inseto próximas à borda e uma perda irregular no canto inferior.
Meu coração acelerou.
— Agora fotografem a prova no mesmo ângulo. Sem correção automática.
González posicionou a lâmina sobre uma base neutra. A câmera da biblioteca gerou a imagem. Sobrepus as duas em camadas transparentes.
As perfurações coincidiram.
Não de maneira aproximada. Perfeitamente.
— Não pode ser — murmurou a funcionária.
— Pode — respondi. — E é.
Raiam se inclinou sobre a tela.
— Explique como se eu não soubesse nada sobre livros antigos.
— Estes furos foram produzidos quando as folhas ainda estavam juntas. Veja o rasgo. A parte que falta na imagem 207 continua nesta peça. É o mesmo bloco de velino.
— Então isso saiu do livro?
— Não. — Ampliei a emenda. — Esta folha vinha depois dela. O que temos aqui é uma página que não faz parte da encadernação conhecida.
O silêncio da sala mudou de natureza.
Até aquele instante, tínhamos uma possibilidade. Agora tínhamos um problema histórico.
— Uma página perdida? — perguntou Raiam.
— Uma página desconhecida. E, se os números forem parte do sistema, talvez a primeira que permita testar alguma coisa em vez de apenas especular.
Expliquei que um conjunto numérico poderia revelar ordem, medida ou repetição. Se os valores correspondessem a estrelas, proporções ou coordenadas, teríamos uma referência externa. Pela primeira vez, seria possível formular uma hipótese que o manuscrito pudesse confirmar ou destruir. Não era uma tradução. Era algo mais raro naquele campo: um experimento.
A funcionária saiu para chamar Wolf. González se aproximou de Raiam e sussurrou algo. Raiam fez um gesto para que eu o acompanhasse até o corredor.
Hesitei.
O manuscrito permanecia aberto, protegido pela plataforma. A prova estava dentro da lâmina, diante de González.
— É rápido — disse Raiam.
Do lado de fora, ele não chegou a fazer pergunta alguma. Apenas esperou. Parecia escutar uma orientação pelo ponto quase invisível em seu ouvido.
— Tenente, por que me chamou?
— Só precisava confirmar uma coisa.
— O quê?
Wolf apareceu no corredor antes da resposta. Voltamos para a sala.
González estava exatamente onde o deixáramos, mas a lâmina transparente agora se encontrava alguns centímetros à direita. Pequeno demais para ser prova de qualquer coisa. Grande o suficiente para eu registrar.
Wolf analisou a sobreposição e perdeu a irritação.
Ele retirou os óculos, limpou as lentes e voltou a olhar. Wolf me conhecia desde Columbia e aprendera a desconfiar tanto das minhas certezas quanto dos meus entusiasmos. Quando conferiu as perfurações pela terceira vez, vi o instante exato em que o diretor venceu o professor dentro dele.
— Preciso desta peça por quarenta e oito horas.
— Impossível — respondeu Raiam. — É evidência de uma investigação com vítimas fatais.
— Então me dê uma cópia de alta resolução.
— Também não posso autorizar.
— O senhor trouxe a única página conhecida capaz de alterar seis séculos de pesquisa e pretende sair sem deixar um registro?
— Pretendo cumprir a cadeia de custódia.
Wolf olhou para mim, como se esperasse que eu encontrasse uma saída. Eu também esperava.
Não encontrei.
Raiam fechou o envelope e pediu que González aplicasse um novo lacre. Ver aquela página desaparecer dentro da maleta provocou uma angústia quase física. Eu havia passado anos diante de reproduções, ampliando sinais numa tela, acreditando que o mistério estava inteiro dentro das bordas do livro. Bastara uma manhã para descobrir que o mundo podia esconder uma página à vista de todos — e que outra pessoa podia levá-la embora.
— Leve-me ao lugar onde a encontraram — falei.
Raiam ergueu os olhos.
— Não é possível.
— Vocês vieram atrás de uma especialista. A página não foi encontrada sozinha; havia um contexto, e contexto também é linguagem. Se querem uma interpretação, preciso ver a cena.
— É uma área restrita.
— Então restrinjam meu acesso. Acompanhem cada passo. Só não me peçam para traduzir metade de uma frase fingindo que recebi a frase inteira.
González observou o parceiro.
— Posso consultar o capitão.
Ele saiu. Raiam permaneceu junto à porta, olhando o relógio enquanto eu encarava a caixa do Voynich.
— Quem indicou meu nome? — perguntei outra vez.
— Não sei.
— E por que a pressa?
— Porque quinze pessoas morreram.
A resposta apagou qualquer euforia.
— Quinze?
Antes que ele dissesse mais, González retornou.
— Autorizado. Só ela. Partimos agora.
— Preciso passar em casa. Roupa, remédios, a chave da vizinha para cuidar do Bibú.
— Dez minutos — disse Raiam. — E nada de celular, relógio inteligente, câmera ou equipamento com GPS.
— Vou ficar incomunicável?
— Poderá usar nosso telefone se precisar avisar alguém.
Wolf soltou uma risada curta.
— Alguém além do cachorro, ele quer dizer.
— Tenho vizinha — respondi.
— Eu disse alguém.
Os policiais não entenderam a piada. Não expliquei.
Na saída, olhei uma última vez para a torre de livros. Sempre imaginara bibliotecas como lugares onde o conhecimento era protegido do esquecimento. Naquele dia, percebi o outro lado: guardar também era uma forma de decidir quem podia saber.
Meu celular ainda estava sobre a mesa do apartamento quando voltei às pressas. A tela acendeu com notificações, compromissos e mensagens que, uma hora antes, pareciam importantes. Desliguei o aparelho e o deixei ao lado do notebook.
Bibú me acompanhou até a porta, inquieto.
— É só Nova York — prometi, sem acreditar muito.
Entreguei a chave à vizinha, desci e entrei no carro dos tenentes.
Quando a porta se fechou, senti que não estava apenas deixando o celular para trás. Estava cruzando uma linha que não aparecia em mapa algum.
E linhas assim raramente permitem retorno.
Adormeci no banco traseiro antes de sairmos de Connecticut.
Não foi uma decisão. Meu corpo simplesmente aproveitou o primeiro momento em que minha cabeça parou de exigir respostas. Quando despertei, o céu já tinha a cor metálica do fim da tarde e a cidade ao redor não me era familiar.
Raiam dirigia. González acompanhava alguma coisa no celular, deslizando o dedo pela tela com uma regularidade quase mecânica.
— Onde estamos?
— Brooklyn — respondeu Raiam. — Mais quinze minutos.
— Até a cena?
— Até a base aérea.
Demorei um instante.
— Que base aérea?
González guardou o telefone.
— A dos helicópteros.
Meu estômago se contraiu.
— Vocês esqueceram de mencionar essa parte.
— É um voo curto — disse Raiam. — Menos de um quilômetro.
— O comprimento do voo não é o problema.
— A senhora tem medo de helicóptero?
— Não. Tenho medo de tudo que precisa sair do chão para funcionar.
Raiam olhou para mim pelo retrovisor.
— Estatisticamente, é seguro.
— Meus pais morreram em acidentes aéreos diferentes. Estatística e eu mantemos uma relação complicada.
O carro ficou em silêncio.
González se virou no banco.
— Se não quiser seguir, nós a levamos de volta.
Era a primeira oferta honesta de escolha que eu recebia naquele dia. Talvez por isso eu a recusasse.
— Quero ver onde encontraram a página.
* * *
O Campo Floyd Bennett parecia uma lembrança industrial esquecida na borda do Brooklyn. Hangares enormes, concreto rachado, vento carregado de sal. O helicóptero nos aguardava com o motor ligado, as pás cortando o ar numa frequência que eu sentia no peito.
González ofereceu um abafador de ruído. Minhas mãos tremiam quando apertei o cinto, e eu as escondi entre os joelhos.
— Olhe para mim — disse ele pelo comunicador.
— Isso faz parte do treinamento policial?
— Não. Minha irmã também tem pânico de voar. Ela fala quando está nervosa.
— Eu fico sarcástica.
— Já percebi.
O helicóptero subiu.
Por alguns segundos, vi apenas o interior da cabine e meu reflexo pálido na janela. Depois a curiosidade venceu. Lá embaixo, cercada pela água escura da baía, surgiu uma ilha tão pequena que parecia provisória. Uma linha de pedras a atravessava de oeste a leste. Em cada extremidade havia uma estrutura semelhante a um arco; o do lado leste estava tombado.
O mar não me assustava. O que me assustava era não haver nada entre mim e ele além de metal, vidro e a confiança de pessoas que eu conhecera naquela manhã. Meu pai costumava dizer que voar era um acordo: durante algumas horas, você aceitava não ter controle algum e chamava isso de viagem. Eu sempre odiara a frase. Naquele helicóptero, odiei perceber que ele estava certo.
Mal comecei a entender o desenho e já estávamos descendo.
Assim que toquei o solo, o medo cedeu espaço ao vento. Era forte, gelado e cheio de areia. O chão encharcado afundava sob as botas.
Raiam apontou para uma faixa mais firme.
— Fique perto de mim. Há áreas instáveis.
— Tenho experiência de campo.
— E eu tenho quinze mortos sob minha responsabilidade. Hoje, os dois currículos ficam do meu lado.
Não discuti.
A cena se espalhava por quase toda a ilha. Técnicos de perícia, policiais uniformizados, equipamentos, refletores, cabos e uma tenda montada às pressas. A chuva da noite anterior deixara tudo coberto por uma película de umidade.
Não havia árvores altas, construções ou qualquer lugar onde quinze pessoas pudessem ter se abrigado. O vento apagava pegadas em minutos. Mesmo assim, cabos grossos corriam por sulcos recentes, e marcas profundas na areia indicavam o peso de máquinas que já não estavam ali. Alguém montara uma obra de engenharia, executara alguma coisa e desmontara quase tudo antes que a polícia chegasse.
González seguiu para um grupo ao sul. Raiam me conduziu até uma valise grossa de alumínio, deformada e chamuscada.
— A folha estava aqui dentro.
A maleta permanecia aberta sobre uma lona, com marcadores de evidência ao redor. Não toquei.
— O exterior sofreu calor intenso. O interior, quase nada.
— Alguma ideia de como?
Apontei para as camadas claras expostas numa rachadura.
— Mica. Ou um composto com propriedades parecidas. É usada como isolamento térmico em fornos e equipamentos elétricos. Alguém queria que o conteúdo sobrevivesse ao fogo.
— Alguém — repetiu Raiam. — Não o acaso.
Olhei além da lona. Quinze contornos numerados ocupavam a extremidade leste da fileira de pedras. Oito de um lado, sete do outro. Mesmo depois da remoção dos corpos, o lugar guardava a violência no modo como todos evitavam pisar perto das marcas.
— Foram encontrados assim? — perguntei.
— Carbonizados. Sem documentos. Ainda não temos identificação.
— E a explosão?
— Não encontramos cratera, combustível ou fragmentos de explosivo convencional.
— Então por que tudo queimou?
— É uma das perguntas que esperávamos que a senhora ajudasse a responder.
— Eu estudo textos antigos, tenente. Não incêndios impossíveis.
— Hoje, os dois parecem estar na mesma investigação.
Ele mostrou algumas fotografias periciais sem expor os rostos. Os corpos haviam sido dispostos de maneira regular, voltados para o centro da pista. Não pareciam pessoas surpreendidas por uma explosão. Pareciam participantes posicionados para assistir a alguma coisa.
— Havia sinais de contenção? — perguntei.
— Nenhum visível.
— Então ficaram por vontade própria.
— Ou acreditavam que estavam seguras.
Perto dos contornos, cinquenta e cinco blocos de granito formavam uma pista estreita. Cada peça lembrava um H deitado, com encaixes tão regulares que pareciam produzidos por uma única máquina. O granito avermelhado contrastava com a areia e a vegetação baixa.
Sobre uma mesa havia uma planta técnica. Li as medidas: 111,23 centímetros de largura; 75,45 de altura; 117,78 de comprimento. Extensão total: 64,78 metros.
As peças eram grandes demais para serem movidas sem guindastes pesados. Ainda assim, os encaixes permaneciam alinhados com precisão milimétrica. Passei a mão alguns centímetros acima de uma borda, sem tocar. A superfície era lisa em áreas específicas e áspera em outras, como se o bloco tivesse sido talhado para cumprir duas funções diferentes: suportar peso e conduzir alguma coisa.
— Encontraram resíduos metálicos?
— Traços de cobre entre alguns encaixes — respondeu um perito. — E vitrificação perto do arco tombado.
— Calor outra vez.
— Mais intenso do que na maleta.
— Quem mediu isto?
Um policial jovem ergueu a mão.
— Eu e a equipe de topografia. Eduard, senhora.
— Por que registraram a direção da pista como 54,96 graus?
Eduard mostrou uma bússola e o mapa.
— O sargento pediu. Ainda não sabemos o que significa.
— Tem acesso a um mapa de projeção global?
Ele abriu um notebook sobre a mesa. A tela estava salpicada de areia. Inserimos a posição da ilha e projetamos uma linha a partir do eixo das pedras.
No mapa pequeno, era apenas um traço atravessando o Atlântico. Reduzi a escala.
A linha tocou o norte da Itália.
Ampliei.
Milão.
Mais um pouco.
O traço atravessava o Duomo.
Pedi a Eduard que calculasse a distância geodésica. Ele digitou os pontos.
— Seis mil quatrocentos e setenta e oito quilômetros.
Olhei para a planta.
64,78 metros.
Os mesmos quatro algarismos.
— Coincidência? — perguntou Eduard.
— Coincidência é o nome que damos a um padrão antes de descobrirmos quem o colocou ali.
Na página 86 do Voynich, certas construções sempre me haviam lembrado a arquitetura milanesa do início do século XV. Até aquele momento, tratava-se de uma associação sem prova. Agora, uma pista de granito surgida numa ilha apontava para a catedral com uma precisão absurda.
O Duomo começara a ser construído em 1386, poucas décadas antes da datação do manuscrito. Suas agulhas, geometrias e sistemas de orientação apareciam de forma distorcida em teorias sobre o fólio 86. Eu sempre evitara abraçar aquela interpretação porque semelhança visual não era evidência. A linha na tela não provava que a teoria estivesse correta. Mas transformava uma coincidência estética num problema matemático.
Raiam cobrava respostas da equipe a poucos metros dali.
— Ninguém viu cinquenta e cinco blocos de granito atravessarem a ponte?
— Não, senhor — respondeu um sargento. — O operador registrou uma balsa com dois guindastes na sexta de manhã. Saiu no sábado. Os equipamentos eram vermelhos, nove eixos.
— Origem?
— Ainda não localizada. O modelo pode ser um Liebherr LTM 1750, mas as empresas consultadas negam operação na região.
— Câmeras de trânsito?
— Apagaram no intervalo em que a balsa passou.
— Apagaram sozinhas?
O sargento não respondeu.
Outro técnico se aproximou.
— O cabo usado aqui puxava energia da nossa base, tenente.
Raiam respirou devagar, como quem escolhia qual indignação usar primeiro.
— Então alguém trouxe setenta metros de pedra sem ser visto, desligou as câmeras e roubou eletricidade da polícia a menos de um quilômetro da polícia.
— Sim, senhor.
— Excelente. Estamos investigando um criminoso econômico.
González riu de longe. A equipe não soube se tinha permissão para acompanhá-lo.
Foi nesse momento que o ruído de outra aeronave tomou a ilha.
O helicóptero era grande demais para passar despercebido e estranho demais para ser confundido com os da polícia. Tinha duas pequenas asas, motores voltados para a frente e fuselagem prateada. Circundou o terreno uma vez.
Raiam levantou o braço.
— Mande afastar. A cena está isolada.
O piloto policial falou pelo rádio e ouviu a resposta.
— Eles têm autorização para pousar.
— De quem?
— Do gabinete do prefeito.
Raiam fechou os olhos por um instante.
Controle raramente chegava gritando. Quase sempre vinha com uma autorização já assinada por alguém que não pisaria no lugar.
A aeronave pousou ao lado da nossa. O piloto da polícia a reconheceu como o Airbus Racer experimental que vira no Paris Air Show. O prefixo era o mesmo: F-WRAC.
Dois homens desceram. Um usava macacão de voo e carregava uma maleta de aço escovado. O outro vestia um terno azul-turquesa que, por alguma razão, não parecia deslocado naquele cenário de areia, morte e fumaça. Era muito alto, de cabelo preto liso, pele morena e traços que lembravam povos indígenas sul-americanos. Caminhava depressa sem demonstrar pressa.
Retirou o capacete e veio direto até Raiam.
— Boa tarde. Kriger Cohen.
— Tenente Raiam. Esta é uma área restrita.
— Por isso solicitei autorização.
— O que deseja?
— Recuperar um artefato pertencente ao professor Dominicano de Pádua Castelli.
Raiam não demonstrou reconhecer o nome.
— Que artefato?
— Uma folha de velino, aproximadamente dezesseis por vinte e dois centímetros, contendo glifos e sequências numéricas.
O vento pareceu diminuir ao meu redor.
— A página — falei.
Cohen olhou para mim pela primeira vez. Seus olhos se detiveram no meu rosto com um reconhecimento que não fazia sentido.
— Exatamente — disse ele.
Raiam cruzou os braços.
— A folha é evidência de uma ocorrência com quinze vítimas. Não será entregue.
— Compreendo sua posição.
Cohen retirou um envelope do paletó.
— Aqui estão o registro do furto realizado em Milão, a declaração de propriedade, a tradução juramentada e a comunicação consular. O original desapareceu da residência do professor em maio.
— E o senhor representa esse professor?
— Represento.
— Quem é Dominicano de Pádua Castelli? — perguntou Raiam.
— Uma pergunta melhor para a doutora — respondeu Cohen, ainda olhando para mim.
— Doutoranda — corrigi automaticamente.
— Por enquanto.
Aquelas duas palavras me incomodaram.
Raiam me chamou para perto da mesa.
— Conhece o homem citado?
— Conheço o trabalho. Dominicano era uma referência em antropologia e linguística aplicada. Brasileiro. Publicou estudos importantes sobre tradição oral e inspiração verbal dos textos sagrados. Depois desapareceu do circuito acadêmico.
— Morreu?
— Não que eu saiba. Apenas parou de publicar há uns quinze anos.
— E nunca mencionou possuir uma página do Voynich?
— Nunca. Se tivesse, o mundo acadêmico inteiro saberia.
— A senhora o admira?
— Entrei em Columbia aos catorze anos. Os artigos dele foram algumas das primeiras coisas que li sem entender tudo e me recusar a admitir. Então, sim.
Eu me lembrava do primeiro: vinte e oito páginas sobre como uma tradição preserva instruções depois que o povo esquece sua origem. Dominicano argumentava que certos rituais funcionavam como recipientes — mantinham a forma de um conhecimento até que alguém voltasse a compreender seu conteúdo. Na época, eu achara a tese exagerada. Diante das pedras da ilha, ela parecia menos confortável de rejeitar.
Raiam me encarou.
— Catorze?
— Meu pai dizia que eu não sabia esperar a idade certa para nada.
Ele decidiu deixar essa informação para outro momento e analisou a documentação com González. Cohen aguardava alguns metros adiante, imóvel, enquanto o piloto segurava a maleta. Mesmo parado, havia nele a tranquilidade de quem já conhecia o resultado.
— Os documentos parecem regulares — disse Raiam quando voltamos. — Ainda assim, a página permanece conosco.
Cohen fez um movimento lento com as mãos: polegar e indicador se aproximaram, depois se afastaram como se ele ajustasse no ar alguma coisa invisível. Já o havia visto fazer gesto parecido ao desembarcar. Não era tique. Havia ritmo e intenção.
— Tenente, não atravessei o Atlântico em busca de sua aprovação — respondeu ele. — Vim para que soubesse quem é o proprietário e para onde enviar suas perguntas.
O rosto de Raiam ficou vermelho.
— O senhor espera retirar uma prova de homicídio porque trouxe papéis e um telefonema do prefeito?
— Eu espero que cumpra a ordem que receberá.
Raiam se afastou com González e ligou para o capitão. Não precisavam me incluir, mas incluíram; talvez quisessem uma testemunha para a humilhação.
— Já recebeu o senhor Cohen? — perguntou o capitão antes mesmo de ser informado.
Raiam apertou a mandíbula.
— Recebi. Ele quer a página.
— A ordem de devolução veio do gabinete do prefeito, depois de consulta à procuradoria. Faça a documentação, registre a transferência e fique com cópias periciais.
— Nós nem concluímos os exames.
— Eu sei.
— Há quinze mortos.
— Eu sei, Raiam.
O cansaço na voz do capitão dizia o que ele não podia falar pelo telefone.
Quando retornamos, Cohen já segurava um conjunto de reproduções autenticadas, imagens em espectro ampliado e um recibo de transferência preparado com os dados do inquérito.
— O senhor veio pronto — disse González.
— Eu vim informado.
Os peritos conferiram os arquivos. Pediram que eu validasse o conteúdo visível. A cópia era excelente, mas cópias nunca carregam tudo. Textura, peso, transparência, cheiro, marcas de pressão — um documento antigo também fala pelo que não cabe numa imagem.
Cohen assinou o recebimento sem pressa. Raiam acrescentou ressalvas em três campos, fotografou cada página e exigiu que o horário fosse registrado por duas testemunhas. A formalidade não devolvia à polícia o que estava perdendo, mas permitia que a derrota tivesse numeração e protocolo.
— É a mesma página — confirmei.
Minha voz saiu mais baixa do que pretendia.
Raiam assinou a transferência como se assinasse uma derrota.
O piloto aproximou a maleta de aço. Cohen pressionou os polegares em dois leitores embutidos. Três bipes graves, e a tampa se abriu.
Havia gavetas finas no interior.
Ele procurou uma vazia.
Na primeira, vi a borda amarelada de outro velino.
Na segunda, uma página inteira.
Na terceira, glifos verdes e vermelhos que reconheci antes que ele a fechasse.
Continuei contando sem querer: duas, cinco, oito…
Não era uma página perdida.
Era uma coleção.
Cohen encontrou espaço, acomodou o fragmento recuperado e fechou a gaveta. Meu dia começara com a descoberta de uma folha impossível. Terminava com a certeza de que alguém mantinha dezenas de respostas guardadas numa caixa — tão perto que eu poderia tocá-las, tão inacessíveis quanto se estivessem enterradas.
A pesquisa me ensinara a desconfiar de quem dizia proteger conhecimento escondendo-o. Mas também me ensinara que respostas não se oferecem a quem apenas as deseja.
Era preciso fazer a pergunta certa.
E, se necessário, impedir que o homem com as respostas entrasse naquele helicóptero antes de me ouvir.
Cohen fechou a maleta.
O piloto se afastou em direção ao Racer, e eu calculei o tempo que me restava pelo giro das hélices. Cinco minutos, talvez menos. Depois que aquela aeronave saísse do chão, a chance de eu voltar a ver as páginas seria nenhuma.
Fui até Raiam.
— Posso falar com ele?
— Este é um país livre.
— Não foi o que perguntei.
O tenente soltou o ar pelo nariz.
— Pode negociar o que quiser, doutora. Só não peça que eu interceda.
— Já fez mais do que o suficiente deixando que levassem a prova.
Ele me lançou um olhar duro. Arrependi-me antes de terminar a frase, mas não havia tempo para consertar nosso relacionamento.
— Desejo sorte — disse ele, sem desejar.
Cohen já colocava o capacete quando o alcancei.
— Senhor Cohen.
Ele se virou.
— A doutora que ainda é doutoranda.
— Stern Ashira Gluck.
— Eu sei.
— Como?
— Acredito que não tenha corrido até aqui para perguntar isso.
Não. E ele sabia.
— Minha tese é sobre o Manuscrito Voynich. Dediquei anos à análise dos fólios, da estrutura linguística, dos padrões botânicos e astronômicos. A página que o senhor recuperou continua a imagem 207 do fac-símile digital. As perfurações e a perda de material coincidem.
— Foi o que ouvi.
— Ouviu de quem?
Um sorriso discreto surgiu no rosto dele.
— A senhora tem o hábito de desperdiçar perguntas importantes quando está nervosa?
— Tenho o hábito de fazer todas até alguém responder.
O sorriso aumentou.
— Continue.
— Quero estudar a página. E as outras que vi na sua maleta.
— Viu outras páginas?
— Não vou insultar o senhor fingindo que não vi.
— Ótimo. Detesto falsa inocência.
O piloto consultou o relógio e fez um gesto. Cohen levantou um dedo: mais um minuto.
— Minha pesquisa parte da hipótese de que o texto conhecido obedece a um sistema completo, não a uma fraude — falei. — Hoje descobri que meu corpus estava incompleto. Isso não invalida apenas uma parte da tese. Muda a pergunta inteira.
— E a senhora quer que eu interrompa uma operação para salvar seu doutorado?
— Não. Quero que me permita descobrir por que alguém queimou quinze pessoas ao lado de uma estrutura apontada para Milão e protegeu, dentro do fogo, uma página que sua gente escondia do mundo.
Pela primeira vez, a expressão dele perdeu a leveza.
— Minha gente?
— O senhor entendeu.
Cohen me examinou como se comparasse minha resposta com alguma informação anterior.
— O professor Dominicano pretende formar um grupo de estudo no Brasil depois da recuperação desta página. Escreva para ele.
— Ele não publica nem responde a pesquisadores há quinze anos.
— Talvez os pesquisadores não soubessem o endereço certo.
Retirou um cartão do bolso e escreveu no verso. Na frente havia o nome Elb Systems e, abaixo de Kriger Cohen, a palavra CEO. O número telefônico tinha quinze dígitos.
— Este e-mail chega diretamente a Dômini — disse ele.
— Dômini?
— É como o chamamos. Seja breve. Ele não confia em pessoas que precisam de muitas palavras para provar que têm algo a dizer.
— Quando o grupo começa?
— Quatro de janeiro.
— Isso é em menos de três semanas.
— Então escreva hoje.
— O senhor acha que ele vai responder?
— Ainda este ano, se estiver de bom humor.
Guardei o cartão no bolso interno do casaco.
— Vai me recomendar?
— Ainda não decidi.
— O que falta?
— Saber se compreende uma regra.
O ruído das hélices aumentou. Cohen se aproximou o bastante para que eu o ouvisse sem que os policiais ouvissem.
— Ninguém pode saber o que havia na maleta. Nem Raiam, nem González, nem o diretor Larsson.
Larsson.
Eu nunca lhe dissera o nome do diretor.
— Está me pedindo sigilo ou me ameaçando?
— Estou lhe oferecendo uma escolha com consequências. Ameaças costumam fingir que não há escolha.
— E, se eu disser não?
— A senhora volta para Yale, escreve sobre as duzentas e quarenta páginas conhecidas e passa o resto da vida se perguntando o que havia nas outras.
Ele não precisou acrescentar nada. Para alguém como eu, aquilo bastava.
— Entendido.
— Não parece convencida.
— Parece que o senhor chama de escolha uma porta que só abre para um lado.
— Quase todas as portas importantes são assim, Stern. A diferença está em saber quem construiu a passagem.
Colocou o capacete.
— Envie o e-mail.
— Senhor Cohen.
Ele aguardou.
— Como sabia que eu estaria aqui?
— Essa foi uma pergunta melhor.
Virou-se e seguiu até a aeronave sem responder.
* * *
Raiam acompanhou a decolagem com os braços cruzados.
— Conseguiu o que queria?
— Consegui um endereço.
— De onde?
— Brasil.
— E vai escrever?
— Hoje.
Ele chamou o piloto da polícia.
— Siga o Racer.
O homem riu.
— Se ele deixar.
— Precisa de mandado para acompanhar uma aeronave civil?
— Preciso de um helicóptero que chegue perto de quatrocentos e cinquenta quilômetros por hora. O nosso mal passa de duzentos. Posso pedir rastreamento ao controle do JFK, mas, quando ele mudar de setor, vamos depender de cooperação entre centros.
Raiam olhou para o ponto prateado que já diminuía sobre a água.
— Descubra para onde foi.
— Tentarei.
— Não tente. Descubra.
O piloto balançou a cabeça e foi para o rádio.
Raiam entregou a González um envelope com a reprodução da página.
— Ele a levará de volta a Yale. Providenciarei uma cópia pericial para a senhora. Se conseguir acesso ao original ou às outras folhas, quero ser informado.
— Cohen exigiu sigilo.
— E concordou?
— Concordei em não falar sobre o conteúdo da maleta.
— Está falando comigo agora.
— Estou informando que não vou falar.
Raiam quase sorriu.
— A senhora seria uma péssima testemunha.
— Depende da pergunta.
* * *
No retorno, González dirigiu por quase três horas sem ligar o rádio. Eu permaneci calada, montando e desmontando o dia dentro da cabeça.
Quinze mortos.
Uma pista de granito apontada para o Duomo.
Uma página que completava a imagem 207.
Um empresário da indústria militar capaz de retirar uma prova por meio de uma ordem política.
Um professor desaparecido da academia.
E uma maleta cheia de páginas que não deveriam existir.
— Posso perguntar uma coisa? — falei.
— Pode.
— Quem deu meu nome ao capitão?
González manteve os olhos na estrada.
— Não sei.
— Raiam também não sabe.
— Então talvez ninguém saiba.
— Isso não faz sentido.
— Nem tudo precisa fazer sentido no dia em que acontece.
— Cohen sabia o nome de Wolf Larsson.
As mãos de González se ajustaram no volante.
— O diretor é uma figura pública.
— Sabia que eu tinha ido à biblioteca.
— Talvez alguém tenha contado.
— Quem?
— Faça essa pergunta ao senhor Cohen.
— Fiz.
— E ele respondeu?
— Não.
— Então já têm algo em comum.
Olhei para ele. González continuou dirigindo como se a conversa tivesse terminado.
Chegamos ao meu prédio às sete e cinquenta. A vizinha devolveu a chave, Bibú me recebeu como se eu tivesse desaparecido por um mês, e passei alguns minutos no chão da sala deixando que ele reclamasse.
Depois abri o notebook.
O rosto refletido na tela parecia mais cansado e mais desperto do que naquela manhã. Digitei o endereço do cartão. No campo do assunto, escrevi três versões antes de apagar todas.
Por fim, deixei apenas:
Página desconhecida do Manuscrito Voynich — solicitação de pesquisa
No corpo da mensagem, fui breve. Identifiquei minha formação, descrevi a correspondência com a imagem 207, mencionei os números e me ofereci para integrar o grupo sob as regras de confidencialidade exigidas.
Reli sete vezes.
O cursor piscava sobre o botão de envio.
Afastei as mãos do teclado.
Era possível fechar aquela janela. Apagar o endereço. Tomar banho, aquecer alguma coisa para comer e, na manhã seguinte, voltar à Beinecke com uma ressaca moral que eu saberia transformar em método. Eu podia comunicar ao orientador que tivera um dia improdutivo, revisar a bibliografia da tese e fingir que o fragmento, a ilha e a maleta de Cohen pertenciam à categoria das coisas que acontecem aos outros.
Bibú apoiou as patas na minha perna. Peguei-o no colo, e ele se instalou entre mim e o notebook, ocupando exatamente o espaço de que eu precisava para continuar adiando.
— Você vota contra?
Ele bocejou.
Na estante, as lombadas dos meus cadernos formavam uma cronologia que ninguém além de mim saberia ler. O primeiro tinha a letra grande de uma adolescente tentando parecer adulta. Os seguintes traziam margens menores, abreviações, referências cruzadas e uma caligrafia cada vez mais impaciente. Eu não chegara ao Voynich por acreditar em destino. Chegara porque uma pergunta sobrevivera a cada método usado para expulsá-la.
Quando meu pai morreu, estudar havia sido a única tarefa capaz de dividir o dia em unidades suportáveis. Uma página. Uma nota. Uma tradução. Nada disso devolvia ninguém. Mas cada coisa compreendida impedia que o mundo fosse apenas uma sequência de perdas sem forma.
Agora eu tinha diante de mim a possibilidade de perder a vida organizada que construíra em torno daquela disciplina. O medo não era de que Cohen não respondesse. Era de que respondesse e transformasse anos de trabalho em prólogo.
Encostei a testa no pelo quente de Bibú.
— Não estou fazendo isso por eles — falei, embora não soubesse quem eram “eles”. — Estou fazendo porque vi.
Pesquisa não era obediência à resposta. Era compromisso com a pergunta depois que ela se tornava inconveniente.
Coloquei Bibú no chão. Ele protestou uma vez e foi beber água.
Um retângulo luminoso, uma decisão e a sensação absurda de que o resto da minha vida aguardava do outro lado daquela tela.
Pressionei Enter.
A mensagem desapareceu.
Em seu lugar, surgiu a confirmação automática:
Enviado.
Era pouco. Mas, naquele momento, tentar era a única coisa que ainda dependia de mim.
O protocolo foi iniciado. A verdade continua no livro.
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Marcelo Lou Frey é o pseudônimo literário de um criador cuja trajetória atravessa tecnologia, inovação, segurança e desenvolvimento de negócios.
Seu contato profissional com a tecnologia começou aos 18 anos, como analista de sistemas na CODEPLAN. Ao longo dos anos, idealizou e desenvolveu soluções de controle de acesso, biometria, prova de vida, bilheteria digital, prevenção de fraudes e gestão de campanhas eleitorais. Entre suas criações estão o Simples Eleitoral e a Octo Key, projeto pelo qual teve sua atuação como coordenador e inventor reconhecida pela Câmara Legislativa do Distrito Federal.
Sua trajetória como inventor e empreendedor foi registrada no livro comemorativo “Sebrae 40 anos: uma história do desenvolvimento brasileiro”. Projetos de sua autoria também foram apresentados em veículos e programas como Jornal Nacional, Programa do Jô, SBT, DFTV e Pequenas Empresas & Grandes Negócios.
Essa experiência investigando sistemas, vulnerabilidades, identidade e mecanismos invisíveis de controle encontrou na literatura um novo território.
Em “Protocolo Wosters”, Marcelo Lou Frey transforma tecnologia, mistério histórico e especulação científica em um thriller que conecta o manuscrito Voynich, Puma Punku, uma civilização ethruriana quase apagada da história e um portal oculto em uma catedral.
Mais do que imaginar o impossível, o autor conduz o leitor por uma inquietante pergunta: e se uma civilização perdida nunca tivesse realmente desaparecido — e ainda estivesse influenciando a humanidade sem que ninguém percebesse?
Entre no mistério de Protocolo Wosters.
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